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O atual Presidente da Assembleia Geral da
ONU, Miguel d’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua sandinista, está
conferindo rosto novo à entidade. Tem criado grupos de estudo sobre os mais
variados temas que interessam especialmente à humanidade sofredora como a
questão da água doce, a relação entre energias alternativas e a seguridade
alimentar, a questão mundial dos indígenas e outros. O grupo talvez mais
significativo, envolvendo grandes nomes da economia, como o prêmio Nobel Joseph
Stiglitz é aquele que busca saídas coletivas para a crise econômico-financeira.
Todos estão conscientes de que os G-20, por mais importantes que sejam, não conseguem
representar os demais 172 países onde vivem as principais vítimas das
turbulências atuais. D’Escoto pretende nos dias 1, 2 e 3 de junho do corrente
ano reunir na Assembléia da ONU todos os chefes de estado dos 192 países
membros para juntos buscarem caminhos sustentáveis que atendam à toda a
humanidade e não apenas aos poderosos.
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Tudo isso parece natural e óbvio e de um
humanismo palmar. Entretanto – vejam a ironia – representantes de países ricos
acham o comportamento do Padre muito esquisito. Apareceu há pouco tempo um
artigo no Washington Post fazendo eco a esta qualidade. Dizia o articulista que
Miguel d’Escoto fala de coisas estranhíssimas que nunca se ouvem na ONU tais
como solidariedade, cooperação e amor. Em seus discursos saúda a todos como
irmãos e irmãs (Brothers and Sisters all). Mais estranho ainda, diz o
articulista, é o fato de que muitos representantes e até chefes de estado como
Sarkosy estão assumindo a mesma linguagem estranha.
Meu Deus, em que nível do inferno de Dante
nos encontramos? Como pode uma sociedade construir-se sem solidariedade,
cooperação e amor, privada do sentimento profundo expresso na Carta
dos Direitos Humanos da ONU de que somos todos iguais e por isso irmãos e
irmãs?
Para um tipo de sociedade que optou
transformar tudo em mercadoria: a Terra, a natureza, a água e a própria vida e
que coloca como ideal supremo ganhar dinheiro e consumir, acima de qualquer
outro valor, acima dos direitos humanos, da democracia e do respeito ao
ambiente, as atitudes do Presidente da Assembléia da ONU parecem realmente
estranhíssimas. Elas estão ausentes no dicionário capitalista.
Devemos nos perguntar pela qualidade
humana e ética deste tipo de sociedade. Ela representa simplesmente um
insulto a tudo o que a humanidade pregou e tentou viver ao longo de todos os
séculos. Não sem razão está em crise que mais que econômica e financeira é
crise de humanidade. Ela representa o pior que está em nós, nosso lado demens.
Até financeiramente ela se mostrou insustentável, exatamente no ponto que
para ela é central.
Esse tipo de civilização não merece ter
futuro nenhum. Gaia se apiade de nós e não exerça sua compreensível
vingança. Mas se por causa de dez justos, consoante a Bíblia, Deus poupou
Sodoma e Gomorra, esperamos também ser salvos pelos muitos justos que
ainda florescem sobre a face da Terra.
Leonardo
Boff é autor de Do iceberg à Arca de Noé, (Garamond),Rio.
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terça-feira, 13 de agosto de 2013
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